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No artigo O percurso sombrio, de Woody Allen, publicado
originalmente no The New York Times, em 1988, e que introduz a autobiografia
de Ingmar Bergman, Lanterna mágica, o diretor americano cita as experiências
familiares traumáticas da infância do mestre sueco, incluindo o viés de culpa
imposto pela educação religiosa e a ausência de sentido da vida. Allen conclui,
com seu humor peculiar, que, com uma história dessas, o sujeito só poderia virar
um gênio. Bergman, o diretor que mais inspirou Woody, fez das experiências
pessoais material valioso para a sua obra de viagem profunda na existência.
Em Woody Allen – Seus filmes são mesmo autobiográficos?, Elie
Cheniaux penetra numa das maiores questões que envolvem a obra do
realizador que melhor traduziu o comportamento social ocidental através do
cinema desde o final dos anos 1960. É a partir de experiências pessoais que o
criador desenvolve sua arte. Mas é necessariamente a encarnação do próprio
autor que determina um personagem? Com Woody Allen há uma frequente
comparação da vida real do ator, diretor e roteirista com o papel que interpreta
ou que é interpretado por atores que replicam seus gestos e maneira de falar.
Até mesmo mulheres como a Jasmine, de Cate Blanchett, reproduzem o
gaguejar típico das criações de Woody. Encontramos nas mulheres retratadas,
um dos principais elementos de sua cinematografia, sinais da família do diretor,
de relacionamentos e do próprio Allen. Mas até que ponto essas vivências estão
nos filmes dele? Neste livro, cada caso é exposto e analisado, e o caráter
comparativo proporciona uma leitura curiosa e instigante.
Na arte, há um fascínio em conhecer quem é e como pensa o
indivíduo que criou aquele mundo. O que passa pela cabeça do criador? Quando
a obra é tão rica e contínua como a de Woody Allen, que atua em muitos dos
seus filmes, a provocação é ainda maior. Só para citar no cinema, sobre
criadores como Charles Chaplin, Orson Welles, Ingmar Bergman, Federico
Fellini ou Stanley Kubrick, atores ou somente diretores, surgem sempre
perguntas. O que eles pensavam quando criaram aquelas cenas? Onde
estavam? Qual era o estado de espírito? Quais experiências eles viveram e quais
pessoas podem ter estimulado a criação daquelas cenas? Por meio deste livro,
de texto leve e bem fundamentado, vamos passear pela obra de Woody Allen e
por aspectos da vida pessoal do artista para entender o neurótico ou apenas o
cara simples que curte um jogo de basquete e gosta de tocar jazz com seu
clarinete.
Teorias para decifrar o homem por trás da obra ou a obra por trás do
homem vão fluindo. Muito do que disse Woody em entrevistas ou está em seus
filmes é colocado em espelhamento. Culpa e castigo, baixa autoestima e
narcisismo, drama e comédia, família e Nova York. O sexo visto com algo
separado do amor. Por outro lado, o romantismo que passeia por suas obras
como Manhattan, Todos dizem eu te amo e Meia-noite em Paris. Allen pensa no
amor como algo lúdico que nos distrai das verdadeiras questões existenciais.
Talvez seja o medo da morte? O livro observa essa obsessão pelo destino na
obra do cineasta e na própria maneira com que Woody reflete isso em suas
entrevistas. Ele sempre encontra o caminho do humor para explicar o que é
inevitável. O fim. E a maneira como vive, filmando com orçamento baixo e
grandes estrelas, um filme por ano, mostra como Woody pensa. Sempre em
processo criativo e de renovação. Há sempre uma história para contar. Uma
intenção de assegurar que está vivo? É necessário alimentar nossa alma, e
Woody Allen cuida disso fazendo filmes e, assim, driblando a morte. Como seu
mestre Bergman pensou em O sétimo selo e o ruivo referenciou em A última
noite de Boris Grushenko.
Woody Allen – Seus filmes são mesmo autobiográficos? reúne os
elementos que envolvem essa questão e proporciona ao leitor a oportunidade de
pensar sobre processos criativos, experiências e existência. A obra de Allen
reflete homens e mulheres do mundo contemporâneo. O diretor que, a partir do
final dos anos 1960, capturou, num contexto psicanalítico, o mundo que estava
em transformação comportamental. Detalhes destacados no livro nos levam aos
filmes. Revisitá-los ou descobri-los é a oportunidade de uma experiência muito
especial.
— Ana Rodrigues, em prefácio escrito especialmente para esta obra.