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28 de Julho de 2008
Buenos Aires de trem! Nós fomos!
Em uma viagem inédita, o Railbuss e RKBC descobrem a maneira mais exótica de se chegar à Buenos Aires... pelos trilhos!!

Por Rafael Kalinowski, da redação Railbuss
Fotos: Rafael Kalinowski


Com o dólar em baixa, a Argentina hoje se tornou um dos destinos preferidos dos brasileiros, visto que dependendo da data da partida, sai mais barato viajar de São Paulo para a capital portenha do que passear nas praias do Nordeste e do Sul do Brasil. A moeda Argentina, o peso, também está vantajoso, com a cotação em janeiro de um peso para 1,70 reais, 3,70 pesos para um dólar, torna tudo muito barato e acessível naquelas bandas.

Outra coisa que é notória na Argentina é a quantidade de ferrovias operando trens de passageiros. Sim, não estão no seu auge, mas ainda existem. O que aconteceu na Argentina foi semelhante ao que houve aqui, aconteceu uma supressão geral dos trens de passageiro de longa distância em meados dos anos 90. Com a crise ocorrida mais recentemente, fazendo com que boa parte dos argentinos tivessem o padrão de vida drasticamente reduzido, a volta dos trens de passageiros com tarifas atraentes seria uma saída. E assim foi feito.

Antigos trens como o El Gran Capital, Tren Patagônico, El Marplatense, Los Arrayanes e outros começaram a voltar, sem o glamour de outrora, no auge da estatal Ferrovias Argentinas. Hoje são todos operados pela iniciativa privada, com velocidade bem abaixo do que antes acontecia. Era normal esses trens, comumente tracionados por locomotivas diesel G22CW, alcançarem os 100 km/h sem muito esforço e fazer viagens mais rápidas quanto ônibus e sem os riscos das violentas estradas argentinas.

Pois bem, como nossa oferta de trens de longa distância é escassa, e o que tem é relativamente “rápido”, desde 2007 a RKBC, junto com o Railbuss, vem enviando aficionados para experimentar longas viagens nos trens do exterior, em especial os argentinos. O legal é que ainda existem vários trens com vagões dormitório, carros restaurante e um certo luxo que não vemos aqui desde o fim dos trens da Fepasa.

A primeira viagem foi no Ferrocentral, entre os corações financeiros da Argentina, Buenos Aires e Córdoba em abril. Foi um sucesso! A sensação de dormir a bordo de um trem, chegar descansado no destino final, tomar um café no vagão-restaurante e depois seguir para o destino é indescritível. Como havia alguns dias livres em Buenos Aires, o pessoal aproveitou para “correr” nos trilhos, passeando nos suburbanos da Ferrovias, chamada por eles de “F Voladora”, onde o trem, também a diesel, atinge mais de 100 km/h entre Buenos Aires e Villa Rosa.

Pensando em algo semelhante, no segundo semestre de 2007 descobri que o El Gran Capitán, operado pela TEA (Trenes Especiales Argentinos), trem que parte de Posadas, província de Misiones, fronteira com o Paraguai, bem próximo da fronteira com o Brasil, estava seguindo regularmente até Buenos Aires novamente, passado um inferno astral ferroviário no começo do ano. Eram duas saídas semanais, sendo uma no domingo e outra na quarta-feira. Me soou interessante montar algo parecido.

Buenos Aires já era o best-seller da RKBC já fazia algum tempo, então conseguir algo no ponto final da viagem não seria problema. O lance era encaixar tudo de modo a lançar um produto novo, voltado exclusivamente para o público dos amantes dos trens, com custo interessante, sem imprevistos e não cansativo. Quase uma missão impossível. Mas deu certo!

Graças a bons contatos na capital portenha, conseguimos, a muito custo, os bilhetes ferroviários. Com eles em mão, o resto seria fácil de resolver. Assim, fechamos o pacote de turismo ferroviário de aventura, inédito no mercado brasileiro, algo que ninguém até então tinha feito comercialmente.

Lançado o pacote em outubro de 2007, não demorou mais que 12 horas para que o grupo fosse fechado, foi incrível. A viagem partiria de Curitiba em janeiro, passando por Uruguaiana, via rodoviária, onde passaríamos um dia para ver como funciona o tráfego de trens entre os dois países, cruzando para Paso de Los Libres dia seguinte, onde embarcaríamos no trem proveniente de Posadas. Atravessaríamos toda a província de Misiones, Corrientes e Entre Rios, beirando a fronteira do Uruguai o tempo todo, chegando em Buenos Aires um dia depois. Assim fecharíamos a viagem com três dias de passeios em Buenos Aires, voltando via aérea para o Brasil.

A ansiedade tomava conta de todos nos meses que antecederam a viagem, pois, em tese, não sabíamos o que iríamos encontrar pela frente. A partida se daria em Curitiba, mas todos os integrantes eram oriundos de cidades distintas. Haviam pessoas do Rio de Janeiro à Rio Grande, todas elas aficionadas pelos trens, boa parte clientes antigos que já viajaram conosco em outras ocasiões para ver trens mundo a fora.

Embarcamos pela Pluma numa viagem de 20 horas até Uruguaiana, partindo às 01h25 da madrugada, em um confortável Paradiso da companhia, relativamente novo, com apoio para os pés, janelas panorâmicas e ar-condicionado. Saiu lotado. A viagem se deu muito tranqüila, com belas paisagens pela janela, inclusive margeando muitas ferrovias gaúchas, sendo que em Passo Fundo conseguimos registrar as G22CU da ALL manobrando no pátio local. Chegamos em Uruguaiana às 21h00, acredite, com o sol ainda se pondo, mágica do horário de verão no extremo oeste gaúcho.



Reabastecimento em Santo Ângelo



A cidade de Uruguaiana é muito simpática, com grandes avenidas e um povo muito receptivo. O legal é ver os trens argentinos chegando com vagões para transbordo no pátio da ALL, onde a linha possui as duas bitolas. Trens brasileiros não cruzam a ponte já fazem muitos anos, somente os argentinos que vem pra cá, puxando quase sempre pranchas com containeres, tracionados por duas G22CW em duplex. O calor estava abrasador, beirando os 40ºC. Já Paso de Los Libres, do outro lado do rio, não tem muito o que se ver, sendo a estação o melhor da festa. A cidade é plana, sem prédios, um tanto quanto desorganizada, mas até que é simpática.



Visita técnica no pátio internacional (bitola mista) de Uruguaiana



Chegado o momento do embarque, saímos de Uruguaiana às 23h00 e fomos para a Argentina, primeiramente os trâmites de imigração e depois chegamos na estação. O embarque estava previsto para às 02h48. Como já era de se esperar, o trem atrasou. Um funcionário da ALL no local informou que a previsão de chegada era às 05h00. Ficamos na estação escura e sem nenhum tipo de serviço, como alimentação e banheiros, a madrugada toda.



Plataforma de embarque da ALL Argentina



Às 06h00, chega o trem, puxado por uma G22CW da ALL, batizada de “Mônica”, com 18 carros FIAT, de cor azul e branco, lembrando os antigos carros da RFFSA, praticamente lotados. Ainda assim, haviam bilheteiros vendendo mais lugares, em especial nas categorias mais humildes. Vale lembrar que esta é uma das regiões mais pobres da Argentina.



Carro dormitório do TEA



O El Gran Capitán, popularmente chamado somente de TEA, possui as seguintes classes de serviço: Turístico, Primera, Pullmann e Dormitório. O Turístico é o mais simples, com bancos inteiriços, janelas basculantes e um calor infernal; o Primera segue a linha do calor, mas possui bancos iguais de ônibus, em material plástico, rebatíveis; o Dormitório, como o nome já diz, são 10 cabines, totalizando 20 camas em forma de beliches basculantes, com ar-condicionado e janelas lacradas, onde o grupo foi instalado; e o Pullmann, bem, era o vagão que eu estava, foi cancelado e não sabem se voltará tão cedo, mas era como se fosse um executivo, com ar-condicionado e poltronas em couro com apoio para as pernas. Graças a isso, tive que pagar por um “upgrade” e fui parar no dormitório junto com os demais.

O trem partiu próximo das 07h00, deitei em meu leito e dormi. Confesso que dormir no trem é um dos sonos mais agradáveis que alguém possa ter, ainda mais se for apaixonado por trens. A suspensão desses carros FIAT é muito macia, fazendo com que alguns trechos de linha ruim nem fossem sentidos.



Estação de Concórdia





Parada de 30 minutos em Concórdia



Fiquei até umas 10h30 dormindo, que foi quando me deu fome, e decidi conhecer o restaurante e fazer o “desayuno”. Tínhamos passado, não fazia muito tempo, Monte Caseros. Nada de pompa e tampouco cardápio variado, só umas torradas com geléia ou manteiga e um café ruim, tudo isso por apenas cinco pesos. Esse restaurante é basicamente utilizado pelo pessoal do dormitório, não vi ninguém dos outros serviços aparecerem por lá, acredito que seja por causa do valor, que deve ser um pouco caro para eles. Assim, tínhamos o vagão-restaurante quase que excluivo para nós.

Em Concórdia, o trem ficou parado por 30 minutos, onde embarcaram nossos amigos railfans argentinos Guido Beck (do site argentino Treneshoy), Patricio e Martín, que gentilmente nos acompanharam durante a longa viagem.

Em certo ponto da viagem, o ar-condicionado do vagão-dormitório pifou, transformando as confortáveis cabines em saunas, já que a temperatura externa era muito alta, sempre acima dos 35ºC. Graças a isso, ganhamos uma cortesia: janta grátis, como pedido de desculpas. Mas o problema com o ar-condicionado não foi um problema grave, visto que parte do pessoal ficava nas plataformas, que podem ficar abertas, conversando, batendo papo ou simplesmente curtindo a paisagem ao ar livre.



Almoço servido à bordo



O pessoal dos vagões mais simples sofre muito na viagem. As condições de conforto e higiene são péssimas, ainda mais agravadas com o severo calor que fazia. Serviço de bordo não há. Quando parava em alguma estação maior, como Basavilbaso, o trem todo descia para comprar gelo, de procedência duvidosa, dos vendedores na plataforma.



Embarque em Basavilbaso



Crianças, idosos, animais domésticos, mudanças, bagagens... todos viajavam juntos, entulhados nos velhos carros, sem marcação de assento, com poltronas quebradas e rasgadas, num forno gigante rumo à capital. Conversando com alguns passageiros, descobri que muita gente iria tentar a sorte lá, pois o desemprego no interior da Argentina continua muito alto.



Pronto para a partida rumo à capital



Um detalhe interessante neste trem é que ele funciona como se fosse um misto. Há um vagão, bem na frente, em forma de gaiola, onde são levados veículos leves, porém o embarque destes veículos é feito somente nas pontas, em Posadas ou Buenos Aires. Havia somente um Ford Falcon e uma caminhonete F1000 embarcadas naquele dia. Cada um pagou 200 pesos pelo frete. Nos fundos, após o vagão-dormitório, tem dois vagões parecidos com bagageiros, chamados de “furgón” que levam encomendas das cidades atendidas, só não levam bagagens!

A viagem segue por região de campos, é quase que uma continuação da paisagem dos pampas gaúchos, sem nada muito interessante, salvo as estações ferroviárias e os cruzamentos de cidades, onde se podia observar um pouco do cotidiano do interior desse pessoal. O único grande atrativo é o conjunto de pontes Brazo Largo, sobre o Rio Paraná, próximo da cidade de Zárate, que é uma obra de arte fantástica.

Como o trem estava muito atrasado, era quase certeza que não passaríamos pelas pontes durante o dia. Dito e feito. Fui convidado, junto com o amigo Jeferson da Luz, a fazer as pontes de dentro da locomotiva.



Anoitecendo em San Martin, agora a viagem é na cabine da G22CW



Foi sensacional. Ficamos a bordo da G22CW entre San Martin e Zárate, num trecho de mais ou menos duas horas, passando pelas monumentais pontes. Mesmo de noite, a paisagem é belíssima, pois a principal ponte de Brazo Largo, uma espécie de pênsil, fica iluminada. O Rio Paraná bem embaixo, torna-se pequeno.

De Zárate para frente, já é a Grande Buenos Aires, sem muita paisagem. Neste momento o TEA assume sua etapa suburbana. Como o atraso já era bem considerável, beirando mais de seis horas no total, decidi relaxar e fui desfrutar um pouco mais da cabine dormitório, que nessa altura do campeonato já não estava mais tão quente.

Chegamos na estação Federico Lacroze além das 03h00 da madrugada. Como já não havia mais trens e metrôs, muita gente ficaria dormindo na estação até prosseguir para seus destinos de manhã. Para nós, achar um táxi do lado de fora foi um suplício. A capital famosa pela quantidade de táxis não tinha um sequer no ponto da estação, e precisávamos de pelo menos três. Depois de mais de meia-hora esperando no breu, “do além” surgiram alguns táxis que nos levaram ao hotel, no centro da capital portenha. Terminava aqui a aventura pelos trilhos missioneiros argentinos.



Típicos ônibus portenhos





Centro de Buenos Aires



Durante os dias livres em Buenos Aires, aproveitamos para passear nos locais famosos, como Plaza de Mayo, o Obelisco, o show que é Puerto Madero e seus bares e restaurantes famosos, a Calle Florida e as lojas liquidando couro e moda de verão. Buenos Aires cada ano que passa me surpreende mais, está muito bem estruturada, relativamente limpa, não vi gente dormindo nas ruas como da ultima vez que estive lá, o policiamento estava bem ostensivo e o melhor de tudo, os preços, estavam muito bons.



Casa Rosada, a sede do governo





Ruas da área central





Galerias Pacífico



O que mais me encanta é o ar europeu que encontramos lá, é muito gostoso caminhar sem destino pelas ruas centrais, pela Recoleta, Palermo e outros famosos logradouros da cidade. Para comer, recomendo o El Palácio de Las Papas Fritas, é um show!



Puerto Madero





Próximo da Universidad Catolica



A quantidade de brasileiros na cidade nos faz sentir em casa, principalmente na Calle Florida e na Galeria Pacífico. É gente de todo o Brasil, muita gente do Nordeste, bastante gente de Brasília, Belém, São Paulo nem se fala. É a alegria dos taxistas e agências de receptivo na cidade. Como tudo é muito barato, todos querem passear por ai. Andar de ônibus pra mais longe? Nem pensar, o táxi é tão barato que dispensa tal aventura.

Também fomos apreciar os trens portenhos! Num desses dias partimos de Retiro/Mitre e fomos até Tigre, nos trens urbanos à diesel da TBA, onde também fizemos o passeio pelos canais e riozinhos do Delta do Tigre. Recomendo fazer o passeio nos barcos pequenos, é mais lento, porém como todo mundo fica próximo das janelas, a vista é excelente, melhor que os grandes catamarãs que navegam por lá também. Um passeio desses custa em torno de 25 pesos. O trem urbano até Tigre, a bagatela de 95 centavos de peso.



Estação Retiro/Mitre





Delta do Rio Tigre



Na volta, decidimos experimentar o moderninho “Tren de La Costa”, que com seus oito pesos de passagem, oferece ar-condicionado e estações com bastante estrutura no caminho, como San Isidro, podendo fazer vários embarques e desembarques. O único senão é o fato que ele não chega em Buenos Aires, mas sim na estação Bartolomé Mitre, que é ligada ao TBA, que volta ao terminal de Retiro/Mitre por mais 85 centavos de peso.



Tren de La Costa chegando em San Isidro



O metrô de Buenos Aires é o mais antigo das Américas, por incrível que pareça, na linha C, ainda há trens de madeira fazendo o subterrâneo. Tentamos pegar um desses trens, mas não demos sorte, conseguimos apenas os novos trens Alston que estão em todas as linhas do metrô. O calcanhar de Aquiles do metrô portenho são as estações. Feias, sujas, mal cuidadas e extremamente mau sinalizadas. Uma pena, um metrô tão antigo e tão feio.

Fim da festa, no ultimo dia seguimos cedo ao caótico aeroporto de Ezeiza, em meio a uma greve de funcionários da Aerolíneas Argentinas, para voltar para casa.



Aerolineas Argentinas em greve



Foi o fim de uma das melhores (e mais exóticas) viagens que já fiz, e do melhor grupo, até então, que já trabalhei. E vamos trabalhando para bolar a próxima... que garanto, será também inesquecível. Para onde vamos? Não sei, mas com certeza vamos atrás de algum trem por ai!

Participaram da viagem, além de mim: José Francisco Pavelec de Ponta Grossa/PR, Leonardo Bloomfield de Petrópolis/RJ, Rafael Telles de São Paulo/SP, Jéferson da Luz de Irati/PR, Carlos e Zilka Melo de Joinville/SC e Viviane e Marilia Alves de Rio Grande/RS, além dos amigos Guido, Patricio e Martin, de Buenos Aires. Aos quais, agradeço por todos os bons momentos nesta viagem, que foi apenas uma de tantas.

Saludos!

Links Relacionados:
- http://www.rkbc.com.br
- http://www.treneshoy.com.ar
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