Domingo, 05 de Julho de 2009

Capa da Estação
Notícias
Galeria de Fotos
Especial 150
Links
 Página inicial
 Índice de notícias
 Image Center
 Quem somos
 Fale conosco
21 de Março de 2007
Cemitério Fepasa
Após 9 anos de privatização, patrimônio da antiga estatal agora é sucata

Por Renato Ferezim, Paulo Sérgio V. Filho, da redação Railbuss
(Atualizada em: 05/04/2007)

No domingo, 18 de março de 2007, o programa Fantástico da TV Globo exibiu reportagem sobre as locomotivas elétricas da FEPASA, abandonadas em um depósito na cidade paulista de Araraquara. O caso é conhecido no meio ferroviário, mas até então, pouco comentado pela opinião pública em geral.


Locomotiva encostada nas oficinas de Sorocaba (SP)

O abandono do patrimônio ferroviário atinge dimensões incalculáveis no Brasil, tanto na propriedade quanto no campo financeiro. Explica-se: com o passar do tempo e também com as privatizações que ocorreram no ano de 1998, atualmente nem a própria Rede Ferroviária Federal (antiga controladora da malha ferroviária) consegue definir o que ainda se encontra sob sua tutela.

Araraquara é apenas uma parte do que se esconde por trás do fantasma chamado RFFSA/ Fepasa. Centenas de estações ferroviárias, Triagem Paulista, pátio de Jundiaí, Araraquara e Sorocaba: estes são apenas alguns casos de uma infinita lista de descaso e desperdício de dinheiro público. Nas linhas abaixo você conhecerá casos que deixam contribuintes e entusiastas ferroviários de cabelo em pé.

Os Budd da EF Araraquara

A foto do carro de passageiros acima agora é apenas uma imagem de arquivo, é símbolo da tentativa do governo Mário Covas de dar sobrevida ao transporte ferroviário de passageiros nas linhas da Fepasa. Na verdade, tal tentativa não passou de mera maquiagem para valorizar a imagem da Fepasa, que seria entregue pouco tempo depois ao Governo Federal (RFFSA) como pagamento de uma dívida do banco Banespa. Com isso, em 1997 os carros fizeram sua última viagem, e foram aposentados em plena condição de uso, levados para Rio Claro (SP). Esta oficina da Fepasa possui grandes galpões onde eram realizadas manutenções, consertos, reformas e até fabricação de peças para locomotivas, portanto, um local onde os carros seriam ao menos protegidos do vandalismo.
Por motivos desconhecidos, os carros foram transferidos em 2001 pela concessionária Ferroban para Jundiaí. Era o início de um fim trágico para os carros de passageiros (aproximadamente trinta). A estadia em Jundiaí durou pouco mais de dois meses, tempo necessário para serem saqueados por bandidos. Com a reclamação da condição de cemitério ferroviário por moradores da cidade através de uma emissora de TV local, os carros foram transferidos novamente pela Ferroban para o pátio de Boa Vista, em Campinas (SP), onde foram totalmente desmontados. Abaixo, a foto mostra o resultado de descaso semelhante, que ocorreu com carros da bitola métrica no pátio de Botucatu (SP):

Tais delitos acontecem a luz do dia, e movimentam um negócio lucrativo, que inclusive se mostra muito organizado. Incomodados, alguns frequentadores do local abordaram o repórter fotográfico de Railbuss, que só conseguiu sair com a câmera inteira do local após convencê-los de que não era policial e que faria as imagens sem mostrar qualquer pessoa próxima aos vagões.

Locomotivas Elétricas
Também em 1998 toda a tração elétrica foi suprimida, encostando assim todas as locomotivas elétricas da Fepasa.


Locomotiva V8 fabricada na década de 30. Existe ainda 1 destas preservada em São Paulo, sob guarda da ABPF.


Locomotivas GE: apelidadas no Brasil de ´Russas´, foram fabricadas a pedido da União Soviética durante a II Guerra Mundial. Com o fim da guerra, a encomenda foi cancelada e 5 vieram para o Brasil (as outras ficaram nos EUA, rodando na ferrovia The Milwaukee Road, onde foram apelidadas de Little Joe).

As fotos abaixo são do pátio Triagem Paulista, em Bauru (SP), onde as carcaças sofrem com a ação de vândalos:

As locomotivas chegaram rodando à Bauru, mas em pouco tempo foram completamente desmontadas. Com macacos hidráulicos, as máquinas eram tombadas e todo o material que possuía algum valor foi saqueado: fios de cobre do motor de tração e peças de bronze dos mancais de rolamento do truque são exemplos.

Pátio Sorocaba
No pátio de Sorocaba (SP) estão 41 das locomotivas que serviam a antiga EF Sorocabana. Foram retiradas de uso após 40 anos e apresentam apenas alguns pequenos sinais de vandalismo, como pixação e vidros quebrados, devido ao grande movimento de funcionários da atual controladora no pátio.


Locomotiva no pátio de Mairinque (SP).


Série 2100, fabricada pela GE em 1967. Em Sorocaba também estão 29 destas.

Locomotivas em caixas
A história contada pelo programa Fantástico, da TV Globo, acontece em Araraquara (SP). É nesta cidade que 6 galpões abrigam um dos maiores símbolos do descaso com as ferrovias brasileiras. O único galpão diferente é amarelo e bem guardado pelos seguranças da América Latina Logística (ALL), concessionária que atualmente administra aquele pátio, e que não tem qualquer ligação com as situações obscuras que envolvem este caso.

Completam alí exatos 20 anos, quase 2000 caixotes com peças de 23 locomotivas. Um negócio de US$ 500 milhões, realizado em 1976 pelo então governador de São Paulo, Paulo Egydio com a empresa francesa Alsthom. As locomotivas elétricas seriam utilizadas no corredor Uberaba (MG) x Santos (SP), um grande passo do estado em meio a crise do Petróleo da década de 70.
O contrato original previa que a Alsthom enviasse duas delas já montadas para que a Fepasa fizesse os testes em sua malha, mas foram as únicas. Porém com a mudança de gestão em 1981, Paulo Maluf assumiu o estado e fez a primeira alteração do contrato. As locomotivas seriam montadas pela empresa EMAQ, do Rio de Janeiro, que chegou a montar parcialmente 4 unidades de um pedido de 80 máquinas. Mas ocorre o inesperado: a EMAQ pediu falência e interrompeu os serviços, obrigando a Fepasa a procurar novos caminhos para contornar o prejuízo.
Com um péssimo planejamento financeiro, o negócio foi um verdadeiro buraco negro para a Fepasa. Diversos empréstimos e parcelas não pagas aos franceses levaram a empresa a bloquear o pagamento do projeto em 1991, tendo como conseqüência o bloqueio no fornecimento, daí a explicação de peças de só 23 locomotivas chegarem.
As duas máquinas que chegaram da França rodaram até 1998 e foram encostadas no pátio de Sorocaba (SP).


Foto exibida no programa, mostra uma das locomotivas francesas no pátio de Mairinque (SP).

O escandaloso negócio foi denunciado na época pelos então deputados estaduais José Dirceu e Antonio Palocci, porém sem qualquer solução.

Em 2005, a concessionária Brasil Ferrovias (hoje incorporada à ALL) levou uma delas para Mairinque e outra para Presidente Altino para recondicionamento. Testes foram realizados e as locomotivas seriam utilizadas para tracionar cargueiros entre Lapa e Amador Bueno. Mas por restrições impostas pela estatal CPTM, que alegou alto consumo de energia comprometendo as operações dos seus trens e peso excessivo por eixo, o projeto foi abandonado e as máquinas deixadas em Mairinque (foto acima). Enquanto isso, o patrimônio continua abandonado e sem qualquer perspectiva de uma solução próxima.


  Envie esta notícia à alguém



Nós apoiamos esta idéia:

O último trem de passageiros do estado de São Paulo rodou até 2002, por obrigação contratual. A composição fazia o trecho de Campinas até Panorama, e foi operado pela Ferroban. (série Trens)


Railbuss.com - Railbuss Publicidade e Jornalismo Ltda
A marca Railbuss e seus logos são registrados. Hospedado nos servidores da BR Telecom
São Paulo, Brasil. 2002 - 2009