Rafael Kalinowski apresenta o Interbairros II: o ´desbravador´ de Curitiba/PR
Por Rafael Kalinowski, da redação Railbuss Fotos: Rafael Kalinowski/ Renato Fonseca/ Theophilo Lubasinski
 Pois bem, todo mundo em Curitiba conhece o famosíssimo Interbairros II, também gentilmente apelidado de glorioso "Falcão Verde", o "Goiabão", etc e tal, enfim... o INTERBAIRROS II, códigos de linha 020 (Anti-Horário) e 021 (Horário), o famoso ônibus integrador da cidade, que em rota circular passa por cinco terminais (Cabral, Campina do Siqueira, Capão Raso, Hauer e Capão da Imbuia) e mais de 20 bairros diferentes.
Antes de falarmos dele, é interessante saber a história deste ícone do transporte coletivo na capital paranaense.
 Nasceu em meados de 1970, junto com vários programas urbanísticos, como os Expressos. Encabeçados por Jaime Lerner, a idéia era criar vários tipos de linha, remodelando toda a malha que havia até então, para poder prover a integração das linhas, a fim de pagar apenas uma passagem e atingir a maior parte possível da cidade, baldeando em grandes pontos conjugados, batizados de terminais.
Assim, nesta idéia revolucionária, nasceram as seguintes segmentações de ônibus nos anos 70:
- Convencional: cor amarela, linhas circulares e/ou ponto-a-ponto que partem do centro aos bairros sem integração;
- Alimentadores: cor laranja, linhas ponto-a-ponto partindo dos terminais para os bairros;
- Interbairros: cor verde, linhas circulares que interligação entre os bairros e terminais, sem nunca passar pelo centro;
- Expressos: cor vermelha, linhas tronco de alta capacidade, utilizando de canaletas exclusivas;
Logo, o Interbairros II, na época era tido como o ´bicho-papão´ das linhas, pois fazia uma viagem super longa; ao contrario do seu ´irmão´ Interbairros I, próximo do centro e bem curto; e também atendendo aos bairros e terminais mais distantes da cidade. Era o terror em forma de ônibus!
Mais de 3h de viagem completa e quase 250km...
E assim foi... Os dois integradores, com o crescimento da cidade ao longo dos anos ganharam mais cinco ´irmãos´, mas nenhum deles seguiu a idéia inicial de ser circular, passando a ser ponto-a-ponto e atendendo os bairros mais distantes entre si.... entao, o velho goiabão II ficou famoso por ser o grande integrador da cidade. Mas era sempre atendido com os piores ônibus, fora de horário e sempre lotado. O Interbairros I é o mais tranqüilo deles, nunca teve muita fama.
Hoje a situação mudou, apareceram os Ligeirinhos, os M-Rit e vários outros segmentos novos nas ruas...
Para nosso herói, no governo Cássio Taniguchi, ouve uma renovação total de frota e, claro, o Interbairros II ganhou o que merecia... carros novos e alguns articulados de alta capacidade e, sua glória merecida, dando a ele de presente, a versão VIP, o ligeirinho Inter II (sim, um clone dele só que com poucas paradas e estações tubo ao invés de pontos convencionais), nasce o "Falcão Prateado".
Vejam a importância dele para o contexto geral de logística urbana! Duas linhas atendendo uma rota só.
Por essas e outras, o Interbairros II é a mais famosa linha da cidade.
Pois bem, a fim de conhecer melhor este símbolo curitibano, lá fui eu, em novembro de 2005, logo pela amanhã, encarar o desafio de fazer um roundtrip completo no goiabão... E vamos nessa!
´Armado´ com o cartão transporte, roupa confortável, celular, 10 reais pra emergências, mp3 player, uma barra de cereal e muito bom humor, parti de minha casa para uma caminhada de 2km até o Terminal do Cabral, onde nem cheguei a esperar, estava encostando o bólido esverdeado, um Busscar Volvo B10M articulado, relativamente novo, de prefixo MR100 da Viação Mercês, pronto pra fazer o sentido "anti-horário" de sua circunferência diária.
Corri na frente dos outros e peguei um assento individual na janela, logo após a sanfona. Lá seria meu lar pelas próximas horas. E o ´latão verde´ foi lotando, partindo pontualmente as 08h32 do setor leste do terminal rumo ao nordeste da cidade para depois iniciar sua descida...
É engraçado o povo que viaja nestes horários fora de pico... Se eu fosse somar a idade de todos que ali embarcaram, passava fácil-fácil a idade do Império Romano, e assim foi nesta primeira ´perna´, onde passamos por bairros quase 100% residenciais, uma perninha do Ahú, Boa Vista, São Lourenço, Pilarzinho, Mercês, Champagnat até chegar no Campina do Siqueira, o primeiro terminal em que paramos...
O Interbairros é um ônibus único, através dele você consegue alcançar qualquer inimaginável ponto na capital e região metropolitana pagando apenas uma passagem, graças a sua super rede de conexões estratégicas nos terminais, mesmo que para isso seja necessário rodar a cidade inteira. Além do que, somente com ele se consegue chegar aos principais pontos turísticos da cidade.
Nesta primeira perna: Parque Tanguá, Parque São Lourenço, Parque Tingui, Bosque Alemão, Torre da Telepar, Parque Barigui entre outros.

Parque Tanguá: famosos pontos turísticos de Curitiba também ficam no caminho do Inter IISeguindo viagem, o perfil do passageiro muda, neste terminal saem os mais velhos e entram os estudantes. Sim, gente nova, bonita, bem vestida! Galera da UnicenP, da Tuiuti, da Espírita... enfim, o "goiabão" também é um reduto estudantil. Do Cabral até o Campina do Siqueira eu poderia ter alcançado também as faculdades da UniExp, as Tuiutis do Bacacheri, Mossunguê, Barigui e Champagnat, além da UnicenP e da Espírita, super ´na mão´!!

Bosque AlemãoDaqui pra frente o valente MR100 não lotou, fez uma volta agradável e quase sem paradas pelos bairros de Santa Quitéria, Seminário, uma bordinha do Água Verde até entrar no Portão, onde muita gente desceu, e adentrou no Novo Mundo e foi parar no segundo terminal, o do Capão Raso (que na verdade fica no Novo Mundo, assim como o do Santa Cândida que fica no Tingui, do Carmo que fica no Hauer e do Presídio do Ahu que fica no Cabral... coisas de Curitiba).
Ali, é outra cidade, saem os arranha-céus luxuosos do Champagnat e entramos em um bairro muito mais populoso, cheio de conjuntos habitacionais e prédios de alta capacidade, além de ter um comércio muito forte.
Aliás, o Interbairros II inclusive ajudou no desenvolvimento do comércio dos bairros desde sua origem. Antes pequenas as ruas pelas quais ele trafegava, hoje são avenidas pomposas repletas de gente, de lojas e de riquezas, tudo graças à esta linha! Essa era a idéia de criação do Interbairros: levar o desenvolvimento aos bairros distantes.
De minha janela, vejo o ônibus lotar, e lotar mesmo!! Ate o momento, aqui foi o ponto mais forte, muita gente saindo correndo do Shopping Popular, anexo ao terminal e ´voando´ para dentro do MR100, que agora, completa 50% do seu trajeto circular. O destino agora é o Hauer: cruzamos a infernal BR476 (como é bom não estar dirigindo!) na Av. Brasília e adentramos no Xaxim, um bairro simpático, grande, mas sem terminal, pura discriminação, e chegamos ao Hauer, o terceiro terminal da viagem. Já são 10h20 da manhã, esvazia o comboio.
Foi engraçado a cobradora: toda hora me olhava e fazia uma cara de interrogação. O que faz esse sujeito neste ônibus até agora? Será um bandido? Será que pegou o Interbairros sentido errado? Será um louco?
Dali pra frente, mais uma vez, embarcam muitos estudantes. Destino agora: Centro Politécnico e Agrárias (sim, Agrárias, lá no Cabral mesmo!!). Mais universidades no caminho do valente ônibus verde, que embora não faça fotossíntese, leva os pupilos para aprenderem do que se trata.
E cruzamos mais bairros, agora à parte sudeste da cidade, do Hauer, passamos pelo Guabirotuba e adentramos no Jardim das Américas, bairro chique, formoso. Passa pelo Centro Politécnico e cruza a BR277, muda de novo de paisagem, um dos bairros mais populosos e grande, o Cajuru. Passa próximo da Vila Oficinas onde alguns funcionários da ALL adentram e logo mais à frente, Terminal do Capão da Imbuia, logo após cruzar a linha do trem pela primeira vez. A bela vista da Serra do Mar deste ponto, vale a viagem.

Vila Oficinas, onde fica o pátio da ALL: Por lá também passa o Inter IIAqui acontece a troca de tripulação e o motor desliga. Ufa! Levanto-me por 10 segundos para esticar as pernas (o banco e os fones de ouvido já faziam parte do meu corpo) e corro pra garantir meu lugar de novo! Fechar a viagem em pé não! A briga por assento no Interbairros sempre foi gladiadora!
E a etapa final, e a mais rápida: o ônibus lota de novo, só que muita gente desce perto, porque o Interbairros II também é amigo dos motoristas imprudentes e de novatos, pára na porta do Detran e do BPTran no bairro do Tarumã!! Vejam se tem ônibus mais completo que este?? Para onde você precisar ir, ele estará lá!
E quando tem jogo?? Como ele passa na frente do Pinheirão, fácil para as torcidas, isso vale pro Ginásio do Tarumã também.
E se eu passar mal?? Não tem problema, logo após o Detran ele pára na frente do Hospital das Nações. Ah, mas se eu passar mau antes? Jóia... Nas Mercês ele pára no Hospital Nossa Senhora das Graças!! E depois? Hospital do Trabalhador no Portão!!
Ah, se meu filho precisar estudar em outro bairro? Dá nada, contei varias escolas no caminho todo.
E comprar bugiganga?? Qualquer ponto! O Interbairros é desenvolvimentista!!
E cortar o cabelo?? Nem se fala...
Não tem desculpa... o Interbairros é o pai de todos. Tem dúvida de que ônibus pegar?? Se enfia no ´Goiabão´!
Etapa final, cruza o trem de novo, Av. Augusto Stresser, só comercio pesado. Entra e sai de gente em todo ponto, um ´saco´. Adentra o Hugo Lange. Ah, mais uma faculdade, a Faculdades de Artes do Paraná, ao lado da Agrárias da UFPR e do TECPAR. Cruza a via rápida e de novo, já estou de volta no Cabral, pontualmente às 11h08, onde deverá partir as 11h15 e recolher às 20h18 neste mesmo terminal, conforme placa no pára-bris, on schedule!!! Redondinho...
Com saudades do meu companheiro de viagem, me despeço do MR100 e sigo para mais 2km de caminhada de volta pra casa, com a missão completa, de mostrar todas as facetas da linha símbolo de Curitiba, o grande, histórico, heróico e colonizador, Interbairros II, o único! Ou ainda, como diz o rapaz da propaganda do ´Rick Motel´... ´O melhor, e mais reservado´.
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